O encontro

por: João Pedro Javera

A primeira vez que tive contato com essa imagem, “And We Do Not Fear” (1922), de Nicholas Roerich, foi no Museu dedicado a parte de sua obra, em Nova Iorque (a outra parte, mais extensa inclusive, está em São Petersburgo, Rússia, sua terra natal). Eu e um grande amigo, Kito, vínhamos da visita de um outro Museu, que infelizmente não existe mais, dedicado à arte Tibetana (Rubin Museum). Era certamente uma manhã profundamente inspiradora, mesmo em meio ao caos urbano.

Adquiri uma cópia da pintura de Roerich, e hoje ela é parte de uma das paredes de meu consultório clínico, encontrando-se em um canto tímido, quase na quina, encontro entre duas paredes. Aliás, um outro bom nome para a imagem seria “O encontro”.

Hoje, em um momento de intervalo de atividades, dediquei-me à sua contemplação e me permiti ser atravessado por seus possíveis sentidos. Compartilho-os, pois podem muito bem descrever a dimensão do encontro clínico.

Inicialmente, percebi que há uma casa à vista; um lugar de conforto, de repouso. Ela é parte da imagem, mas se encontra ao fundo; é mais uma promessa de descanso do que sua atualidade. Para acessá-la, um percurso deve ser percorrido. Mas apenas por vislumbrá-la no horizonte, já se tem um grande alívio. A casa, a morada, é, portanto, esperança; lugar no qual é possível assentar-se, pertencer, familiarizar-se.

O encontro é marcado por uma atmosfera de transitoriedade – os personagens estão em pé – deviam estar caminhando há pouco e em breve continuarão sua jornada. Mas, nesse momento, demoraram-se na presença um do outro.

Um urso, elemento que habitualmente poderia ser vivido como ameaça, perigo, é curiosamente parte do encontro amistoso. O medo estaria sendo domesticado? Em russo, a palavra para “casa” é dom. A palavra dóma, com o acento na primeira sílaba, significa “em casa” (Ya dóma, “Estou em casa”). Portanto, domesticado, aqui, não seria sinônimo de “sob controle”, mas teria o sentido de estar em um estado de familiaridade. Talvez seja esse o destino dos muitos medos compartilhados em um processo terapêutico – torná-los familiares, fazê-los parte de nosso mundo, a partir de um posicionamento fundados na serenidade e no acolhimento – e que promovem integração.

As duas figuras humanas vestem túnicas típicas de monges, seres humanos devotados ao Sagrado, a um Bem maior que os atravessa. As duas pessoas que se juntam em um ambiente terapêutico também têm que se apoiar sobre aquilo que há de mais saudável dentro de si, que há de mais construtivo e criativo (“aliança terapêutica”, como já foi nomeado pela literatura), a fim que possam realizar a nobre tarefa da travessia humana. A partir dessa compreensão, entende-se que é o lado “santo” (não no sentido moralista do termo) de cada um que os impulsiona para um inédito promissor e curativo.

As duas figuram também rebem auxílio do entorno: não bastam as próprias vitalidades individuais para moverem-nas – a inspiração e a sustentação externas, em forma de beleza, de gênio estético, participam do impulsionamento ao inédito transformador.

Por fim, vê-se que os participantes já se encontram nas alturas (o fato de estarem disponíveis para a troca já é meio caminho andado para o processo de constituição de si…), mas anseiam pelo ainda-mais-transcendente.

O chão é frio, o ar é gélido, a animalidade está sempre ao lado como possibilidade de irrupção, mas a aposta esperançosa vivida em encontro possibilita o devir.

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